Prevenção de Doenças

Prevenção de Doenças

PREVENÇÃO DE DOENÇAS

O termo Prevenção está relacionado a medidas tomadas antes do surgimento ou agravamento de uma condição mórbida ou de um conjunto dessas (LEFEVRE, 2004). Portanto, prevenir também significa agir para que a doença manifeste-se de forma mais branda no indivíduo ou no ambiente coletivo.

O movimento da medicina preventiva surgiu, entre o período de 1920 e 1950 na Inglaterra, EUA e Canadá, em um contexto de crítica à medicina curativa. Este movimento propôs uma mudança da prática médica através de reforma no ensino médico, buscando a formação de profissionais médicos com uma nova atitude nas relações com os órgãos de atenção à saúde; ressaltou a responsabilidade dos médicos com a promoção da saúde e a prevenção de doenças; introduziu a epidemiologia dos fatores de risco, privilegiando a estatística como critério científico de causalidade (CZERESNIA, 2003, p.04).

Segundo Arouca (1975 apud CZERESNIA, 2003), o discurso da medicina preventiva emergiu em um campo formado por três vertentes: a Higiene, que surgiu no século XIX; a discussão dos custos da assistência médica; a redefinição das responsabilidades médicas que aparece no interior da educação médica.

 

PROMOÇÃO DA SAÚDE

De modo geral, a Promoção da Saúde é vista como o conjunto de ações cujo objetivo é tratar as doenças: avaliações médicas preventivas, consultas, exames, ou ainda, há quem pense em programas de vacinação ou mutirões de profissionais da ‘saúde/doença’ na expectativa de promover saúde. Segundo Lefevre, “Promoção da Saúde representa uma possibilidade concreta de ruptura de paradigma no campo da saúde” (2007, p.31).

Ao contrário dos Programas de Prevenção de Doenças, o formato dos Programas de Promoção da Saúde deve ser pensado de modo a gerar uma mobilização que aproveite o conhecimento adquirido para investir no campo sanitário. A proposta de pensamento deve interferir diretamente no cerne do modo de vida das pessoas e melhorar de forma direta a condição e a qualidade de vida. Isso implica em declarar guerra ao sedentarismo, investir na reeducação alimentar de qualidade e no crescimento cultural do indivíduo, para que sua imunidade fisiológica fique em alta.

[…] doenças devem ser vistas como anormalidades, como exceções, conseqüências de erros, desequilíbrios, injustiças, opções inadequadas, interesses mesquinhos, etc. Algumas doenças continuarão sempre existindo, mas um grande número delas pode deixar de existir se os homens mudarem seu estilo de vida, se passarem a construir e a viver em cidade e países saudáveis (LEFEVRE, 2007, p.41).

 

É importante observar que a primeira definição de saúde é “bom estado do indivíduo, cujas funções orgânicas, físicas e mentais se acham em situação normal” (Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0.18, 2004). Ou seja, o caminho para Promover a Saúde não é ir ao médico fazer um check-up. Este tipo de comportamento contribui apenas para lotar a agenda de atendimento dos médicos. O que um médico pode fazer efetivamente é detectar/diagnosticar a doença já existente, ou seja, se não existe doença não há o que diagnosticar. Enfim:

Os primeiros conceitos de Promoção da Saúde foram defini­dos pelos autores Winslow, em 1920, e Sigerist, em 1946. Este definiu como as quatro tarefas essenciais da medicina: a promo­ção da saúde, a prevenção das doenças, a recuperação e a rea­bilitação. Posteriormente, Leavell e Clark, em 1965, delinearam o modelo da história natural das doenças, que apresenta três níveis de prevenção: primária, secundária e terciária. As medi­das para a promoção da saúde, em nível de prevenção primário, não são voltadas para determinada doença, mas destinadas a aumentar a saúde e o bem-estar gerais (ANS, 2009, p.18).

 

Conceitualmente, Leavell e Clark sugeriam que o foco central desta discussão da Promoção da Saúde fosse o indivíduo, incluindo de forma significativa a família ou certos grupos de pessoas (1965 apud ANS, 2009, p.18).

Mas para BUSS, este método era falho em um ponto. Ele percebeu que, quando o assunto se voltava para doenças crônicas não transmissíveis, os esforços de atuação deveriam ser mais abrangentes, de modo a influir – inclusive – no ambiente e no estilo de vida das pessoas (2003 apud ANS, 2009).

Um contraponto interessante pode ser encontrado ao lançarmos olhar para o panorama atual em que postos-de-saúde, prontos-socorros e unidades da rede pública de atendimento a saúde oferecem filas de espera e uma estrutura focada no atendimento de assistência ao doente. São lógicas distintas. Enquanto os pensadores propõem um trabalho voltado a pessoa e não à doença, no estado as redes de atendimento a saúde trabalham com um modelo que evoluiu com o propósito curativo.

Em 1974, um estudo realizado no Canadá apontou que os custos da assistência à saúde da população eram crescentes, e nele foi observado também que os resultados do modelo assistencial vigente eram pouco significativos (ANS, 2009). A partir desta avaliação foi possível constatar que as principais causas de “morbimortalidade” canadense estavam diretamente ligadas a dois fatores: a biologia humana e aos aspectos do estilo de vida. Por isso, a maior parte dos gastos do estado, voltados a saúde, estava relacionado à assistência curativa. A resultante deste estudo foi a implantação de um movimento de Promoção da Saúde em que “foram propostas cinco estratégias para abordar os problemas do campo da saúde: promoção da saúde, regulação, eficiência da assistência médica, pesquisa e fixação de objetivos” (ANS, 2009, p.18).

Atualmente, para entender a “Promoção da Saúde como uma mudança de paradigma é preciso enfrentar uma discussão que permita distinguir Promoção da Saúde e Prevenção de Doenças, já que prevenção ainda está associada ao antigo paradigma” (LEFEVRE, 2007, p.34). Leavell e Clark reforçam o conceito sugerindo que ações de Promoção da Saúde são medidas adotadas que não são dirigidas a nenhuma doença ou agravo em particular; mas causam impactos positivos sobre a saúde da coletividade (1976 apud ANS, 2010).

É preciso deixar claro que ao falar de Promover Saúde estamos falando de abolição do sedentarismo, prática frequente de atividades físicas, alimentação equilibrada e de qualidade e, por último, mas não menos importante o investimento em saneamento básico. A Promoção da Saúde busca atingir as causas mais básicas, melhorar a resistência do indivíduo ou do coletivo, e não apenas evitar que as doenças se manifestem, “trata-se de um horizonte, de uma imagem-objeto ou de uma utopia” (LEFEVRE, 2007, p.37).

Pensadores como Lefevre criticam o uso da máquina no trabalho de Promoção da Saúde. O pensador diz que ela pode estar sendo usada para deslocar a saúde do seu espaço político nobre sob alegação de que a saúde é outra coisa diferente de doença. Segundo ele, o desfecho disso é a tecnologia hegemônica reinando inconteste sobre o campo sanitário, relegando a Saúde Coletiva ou Pública à condição de articuladora de uma estratégia compensatória que, sob uma roupagem vagamente progressista, destina-se, no fundo, a bloquear o acesso das massas pauperizadas e excluídas do mercado de consumo de bens de saúde. Para Lefevre, isso coloca em cheque a própria concepção moderna de Saúde Coletiva (2007, p.10).